As opiniões aqui expressas são estritamente pessoais e não refletem a posição do governo ou de qualquer empresa.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Ortográficas IV

Eu acho é que a língua portuguesa está perdendo parte de seu charme. Adoro línguas com tremas e caracteres diferentes - vejam só o œ francês, o ñ espanhol, β alemão e ø dinamarquês. São aparentemente desnecessários, mas dão charme. Assim como nossos queridos trema e é de assembleia(!?).

E não vai haver uniformização que convença que devamos dizer pequeno almoço no lugar de café da manhã, ou vice-versa. Ou seja, mudam-se as regras, criam-se milhares de dinossauros linguísticos e tudo continuará do mesmo jeito, "inacreditàvelmente". Só para que as futuras gerações possam rir de nós quando deixarmos escapar um vôo acentuado.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Ortográficas III

Hoje me peguei preenchendo um cheque:

"Cento e cinqüenta reais"...

Acho que sou o único cidadão a lembrar de botar o trema até em cheque. Agora que o trema nem existe mais, isso deixou de ser uma obsessão para se tornar uma obsessão gramaticalmente incorreta. Ou seja, uma dupla obsessão para mim, editor por sina e danação.

Hei de me acostumar ao sumiço das bolinhas, como foi com o fax, o videocassete, o micro-ondas (viram?!) e o celular. E o que mais houver de vir. Trema, tremei: sua derradeira hora chegou! Aquela em que um último brasileiro se lembrará de escrever-te ou imprimir-te, em tela ou papel. Terá sido meu cheque teu epitáfio? Cento e cinquenta reais (viram?!) não pagam os relevantes serviços prestados à nação. Mas sabes que a memória dedicada aos que saem de cena é assim mesmo, demeritória...

Tremamos todos: um dia, tremas seremos nós.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

tempo de mudanças

Gostaria de escrever mais, mas estou passando por um período de mudanças e novidades (nada sério, mas o foco está em outro lugar). Seguem, ao menos, algumas palavras roubadas:

"There is a point at which everything becomes simple and there is no longer any question of choice, because all you have staked will be lost if you look back. Life's point of no return." (Dag Hammarskjold)

Peri, será que o camarãozinho que resistiu não mereceria voltar para o rio? Ou ele já atingiu seu life's point of no return?

domingo, 18 de janeiro de 2009

Pituzinho é da família

Só sobrou o pitu. Uma doença misteriosa dizimou o diminuto cardume (será que essa palavra vale para 3 ou 4 peixinhos?) que ainda habitava o aquário.

Mais supresos ficamos ao voltar à lojinha de peixes e informar ao vendedor sobre a mortandade que acometera nosso aquário, e sobre seu único sobrevivente. "Engraçado, o pitu é o mais frágil de todos". Voltamos da loja sem nenhum peixe novo. Ouvimos uma longa explanação sobre a necessidade de desinfetar o aquário, providenciando uma provisória transferência do pitu, antes colocar outros moradores.

Ainda não partimos para mais esta reviravolta neste mundinho aquático recém-inaugurado no lar. Mas nosso carinho pelo pitu cresceu consideravelmente. Enternecidos, observamos a destreza com que passeia pela água, movimentando as patinhas como se fossem asas, pousando as finas antenas sobre os escassos objetos que decoram seu limitado universivo. Parece ter gostado de um brinquedinho de plástico que Bento ganhou no McDonald's, um personagen de desenho animado ainda desconhecido da casa. Se equilibra ali em cima explorando minúcias com suas garrinhas transparentes.

Já contei que um dia flagramos o "fantasma" dele flutuando pela água? Era a casca abandonada, com o mesmo formato de seu corpo. A descoberta causou frisson: pitu muda de casca!

Agora temos de fato um bicho de estimação. O que torna tudo mais intenso. E mais delicado.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Ortográficas II

Quando manter o uso do trema:

"Ele é do tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça"

Ortográficas I

Vôo:
Em caso de pouso na água, utilize seu acento para flutuar.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Reis

Seis de janeiro. Dia de Reis. Na Argentina de Cortázar e Quino, as crianças enfim recebem dos magos os presentes que, por aqui, vieram bem antes, pelas mãos de um inexplicável velho barbudo hipervestido de vermelho, no aniversário de Jesus. Nonsense. Bem mais razoável é atribuir mesmo aos magos o papel de trazer os presentes aos pequenos, como levaram há 2008 anos ao bebê “nascido em manjedoura que de berço serviu”.

Ou 2009? Se o “ano 1” começou no nascimento de Cristo, começou num 25 de dezembro? Durou, portanto, seis dias? Inúteis divagações. O tempo humano já mudou de formatação tantas vezes que questionar sua lógica não leva a nada. Vamos fingir que o calendário é fato consumado e dançar conforme o tique-taque, caso contrário este post termina aqui. E não foi isso que eu planejei. Ele promete ser longo (ou durar muito, como queiram).

Aos fatos. Seis de janeiro é também o dia oficial de retirar as decorações de Natal. Vão-se as guirlandas, luzinhas de camelô dependuradas em todo canto e o Papai Noel gigante que desde novembro canta na minha janela das 18h às 22h, sentado na fachada de um banco para deleite dos turistas mineiros e suas câmeras digitais, e para nossa irritação. Vai-se a árvore de Natal gigante que engarrafa a Lagoa Rodrigo de Freitas. Chega ao fim, também, a curta existência da nossa árvore de Natal familiar.

Pela primeira vez, ela não é um ridículo conjunto de pedaços plásticos encaixados, de onde pendiam ainda mais ridículas folhinhas retangulares de papel verde-escuro. É uma árvore de verdade. Um mini-pinheiro, ou que nome botânico tenha aquilo. Veio num grande vaso, ao preço camarada de R$ 40. Um “pinheiro” de plástico do mesmo tamanho era vendido ali perto por R$ 400.

Uma árvore de verdade. Viva. Carente de água, luz e, dizem, carinho. Pendurar os enfeites com as crianças não foi fácil. As duras pontas das folhas espetavam nossos dedos. Os galhos finos mal resistiam aos enfeites mais pesados. Os mais leves se perdiam dentro da folhagem farta. Resultado: ela ficou meio mal ajambrada, irregular, despenteada. Mas dava satisfação ver as pequenas maçãs de plástico despontando aqui e ali. Dizem que o símbolo surgiu na Europa, quando os agricultores, ao fim do inverno, adornavam uma árvore com frutas e pães, oferendas à espera da fartura para quando chegassem as estações férteis. Não sou agricultor, moro em apartamento, minha comida vem do supermercado e meu salário não se abala muito com possíveis oscilações das safras. Ainda assim, nosso pinheirinho parecia fazer mais sentido do que bonecos de neve, bolas coloridas e ursinhos numa árvore de plástico. Se não temos mais ligação com a terra, ainda temos com o tempo: o ano acaba, e de alguma forma aquele ser vivo na sala de casa dizia algo sobre encerramentos e renovações. “Não esqueçam de regar!”. Três garrafinhas (de coca-cola) de água por dia seriam suficientes para mantê-la viçosa.

No dia 25, aos pés do pinheiro, Bento e Helena encontraram seus presentes de Natal. O principal, para ele, foi um aquário. Com direito a oito peixinhos e respectivos apetrechos para cuidá-los: rede, comida, pedrinhas decorativas, gotas anti-cloro. Incrível como o Papai Noel pensa em tudo, embora os peixinhos já parecessem meio sufocados após a longa viagem saindo do Pólo Norte e percorrendo o mundo ao contrário do fuso. Corri para encher o aquário sob o olhar admirado das crianças. A água não chegou à metade: o vidro estava trincado, vazou. Providencia-se uma bacia e tasca-se os bichinhos lá dentro: dois gupis, dois laranjas (o macho com rabo em forma de espada), um cascudo, um pitu, dois paulistinhas. Quando amanhece o dia seguinte, um paulistinha bóia inerte e o laranja macho simplesmente sumiu. Depois de alguma procura, o encontramos entre os lençóis do colchão ao lado do aquário. Também está morto. Enquanto a loja providencia o conserto do vidro, vigiamos a bacia, agora coberta com um tecido reticulado para evitar saltos suicidas.

Quem disse que ter peixe “acalma”? Passamos os dias fazendo visitas aflitas ao quarto, para ver se estão todos bem. Mas nossa inexperiência põe tudo a perder: a imprevidente transferência da bacia para o aquário provoca um choque térmico em seus frágeis organismos. Sucumbem, em seqüência, os gupis, o paulistinha, o laranja fêmea. Antes que o aquário fique deserto, providenciamos reposições: entra um casal de “mato grosso” e um “grandão”. Aparentemente adaptam-se melhor, pois chegam vivos a 2009.

Seis de janeiro. O cascudinho é mais um a dar adeus à nossa convivência, descarga abaixo. Dos pioneiros, resta apenas o pitu — camarão de água doce. Não só resistiu como cresce a olhos vistos, alimentando-se das sujeirinhas entre as pedras. “Se ele morrer você pode comer, pai”, diz Bento. Aos 5 anos, terá aprendido alguma lição com este estranho presente de Natal, sujeito à morte súbita? Trocar as pilhas, por exemplo, já sabe que não adianta.

A árvore? Três garrafas diárias não foram suficientes. Sabe-se lá de onde ela foi retirada originalmente, mas está claro que aqui não é seu lugar. Os galhos ressecaram, as folhas estão marrons, os enfeites estão mais visíveis. Seis de janeiro, dia de encerrar a tradição. Bem a tempo. Não dá para guardá-la numa caixa, e ela não desce pela privada. Mas estamos providenciando um fim digno.

Não foram vidas em vão. Cumpriram sua missão, de nos lembrar perdas e ganhos. Ano que morre, ano que vem. E a dádiva de acordar todo dia já não passa despercebida. Soa menos automática aquela velha frase — Feliz Ano Novo.